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DI-EU

Trás lá pra mais ou menos 1945, tinha cá eu uns seis anos, minha mãe mandou-me buscar algo, na padaria ou quitanda. No meio do caminho vi, pela primeira vez, um japonês. Fiquei apavorado e voltei correndo para casa. Isto é um exemplo do que a mídia faz na cabeça do povo. As emissoras de rádio diziam que os japoneses eram cruéis, e que torturavam as pessoas enfiando farpas de bambu debaixo das unhas e colocavam fogo. Japonês era o diabo em pessoa. Com fatos como esse a gente aprende que, quem perde a guerra é bandido e quem ganha é mocinho, embora na realidade nem sempre seja verdade.

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Ainda moleque aprendi, levando bronca de minha mãe, que educação cabe em qualquer lugar. Foi o que ela me disse. Fui pra rua jogar bola e, disposto a aplicar o aprendizado. A ocasião não demorou a chegar, em jogo de rala dedão sempre ocorrem desavenças. Muito contente e sentindo-me importante disse: - “A educação cabe em qualquer lugar.” Recebi o troco na hora: -“Então enfia no cú”. Foi a minha grande primeira decepção. Ou minha primeira grande lição de rua.

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Uma outra decepção ocorreu lá para os meus 15 anos, ainda acho que um adolescente, naquele tempo com essa idade éramos praticamente crianças. Bem, foi assim: conversando com meu irmão e um nosso amigo mais velho, disse-lhes que sempre esperava a hora em que a Adelina passaria pela nossa rua. Ficava na janela só para vê-la e cumprimentá-la. Estava caído pela garota. Era uma alegria quando ela passava e respondia ao boa tarde. Foi aí então que me fulminaram, dizendo: “Sabe, realmente ela é muito bonita, muito boa, mas é uma grande biscate, dá pra todo mundo”. E meu mundo caiu.

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Entrei na faculdade em 64, ano da “mardita”. Os infelizes dizem que tomaram o poder em 31 de março, pra não virar gozação logo no primeiro dia. Porem na verdade, a data é 1º de abril. Estávamos de plantão no Centro Acadêmico, e na madrugada do dia da mentira os rádios anunciaram a movimentação de tropas e a tomada do poder, para alegria do Sr Lincoln Gordon (foi promovido uma semana após) e dos nossos entreguistas e usurpadores do poder, de plantão.

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Em 1957, acho que setembro, entrei para o DER .. Poderia ter ficado em Araraquara, onde morava, pois no concurso passei em 4º ou 5º lugar, mas daí a um mês haveria a prova de datilografia. Só conhecia de vista, maquina de escrever. Fui para 34º. Fui parar em Tanabi, em 1958, após estagio em Araraquara. Com 18 anos transferi também para Tanabi, a inscrição do Tiro de Guerra.
O sargento, não me lembro o nome (ainda bem) era um pinguço de marca maior. Ele falava com muita empolação, olhando por cima, mas não mandava nada. Certa vez, mandou que os recrutas tirassem os bancos da sede do Tiro e lavassem tudo. Ia chamando de dois em dois. Quando repetiu o nome do soldado Joaquim, ele disse que já tinha ido. O sargento:”Não interessa, vá outra vez, aqui quem manda sou eu. Se não obedecer está expulso do Tiro”. O soldado não fez e foi embora para casa. Dissemos a ele: “volte amanhã, como se nada tivesse acontecido”. E, foi realmente o que aconteceu, isto é, nada.
Numa outra vez mandou que colocássemos na mochila, picareta, armamentos e outras tantas porcarias. Íamos fazer uma marcha de 24 km. Avisado por veteranos, os que resolveram levar bebida alcoólica, foram aconselhados a levarem um pouco a mais. Levei duas garrafas de Caracu. Ao sairmos da cidade (depois de marcharmos a distancia de uns 5 ou 6 quarteirões) com todos os apetrechos nas costas, recebemos ordens de formarmos duas filas uma de cada lado da estrada (de terra), sentados de frente para o barranco e colocando a mochila atrás para que ele revistasse, e, se encontrasse bebidas o soldado seria suspenso. Da minha mochila sumiu uma garrafa de Caracu, assim com dos outros sumiram algumas outras garrafas. Depois ordenou a um soldado ( o por nós chamado Cabo Tripa, hoje médico em Tanabi) que assumisse a tropa, ficando responsável pela execução do restante da marcha. Ele voltaria a cidade pois tinha serviços a fazer. Esperamos ali, por uns 10 minutos, após o que também voltamos para a cidade. Esta foi a maior e única marcha que executamos.
No meio do ano recebemos a noticia de que íamos ter mais um sargento (Dois para 46 soldados?). Mas foi o que realmente aconteceu. Ele foi apresentado. Nordestino de 1,60 m cabeça chata. Fiquei apreensivo, achava que devia ser bravo pra cachorro. À tarde, lá pelas 3 horas, parado na porta do escritório do DER, vejo o baixinho que vem vindo. Quando chegou perto, perfilei, em sinal de respeito. Ele parou, perguntou se era do Tiro, o que fazia, e finalmente se tinha uns minutos para lhe dar atenção. Sentamos em um bar em frente ao escritório e me contou que estava muito angustiado, por estar longe da família e que precisava de alguém para desabafar. E esse alguém fui eu. Após umas duas horas, ou pouco mais, ele já estava mais tranqüilo, e nós dois bebinhos. Não era bravo, estava ali apenas para cumprir o tempo necessário para poder voltar para o nordeste. Boa gente o sargento Cavalcante.

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Agora me lembrei do nome do infeliz sargento do TG-50 de Tanabi, era Bassi. Depois de retornar a Araraquara, terminei a Escola de Belas Artes, fiz o curso clássico, após o que fui fazer Química na FFCL de Araraquara, em 1964. Essa mistura de conhecimentos foi-me muito útil.
Mas, o importante é o seguinte: depois de tanto tempo, estando já na Faculdade, participando de reuniões, assembléias e passeatas (fazia parte da equipe de segurança, ou seja, meia segurança, mas isto fica para depois) tudo contra a “mardita” de 64, eis que reencontro aquela desgraça, agora Capitão Bassi, estava me esperando à saída da aula. Era muito, meu querido soldado Almeida, meu grande amigo Almeida, meu soldado e patriota Almeida, que não era para menos ficar desconfiado. Continuou por quase um ano, cercando-me em lugares variados, levando-me até o seu QG e fazia-me muitas perguntas sobre atividades políticas do pessoal do Centro Acadêmico, dizendo que eram comunistas e que deveríamos tomar muito cuidado com eles. Tudo que ele me perguntava respondia vagamente dizendo não saber o que pensavam e que ia ao CA apenas para reuniões festivas. Descobri depois que ele sabia que eu estava mentindo. Isso me deixou preocupado. Por esse motivo, a meus pais, meus irmãos, namorada, conhecidos e colegas do DER não eram informados de minhas atividades no CA. Quanto menos soubessem, melhor. Eu não estava comprometido com o pessoal do CA, porque confiavam em mim e, ficavam sabendo quem estava na mira do capitão.
Depois de uma reunião do CA com pessoal da UNE, fui com eles a um restaurante, e não é que aparece o soldadinho, dirige-se à nossa mesa, todo engalanado, cheio de tampinhas de garrafa na farda, abraçou-me, chamou-me de grande amigo, de meu homem de confiança, levou-me para outra mesa para conversar seriamente, mas foi só conversa fiada para segurar-me ali até que o pessoal da UNE e do CA tivessem se retirado. Acredito que como não tinha minha colaboração resolveu queimar meu filme junto aos estudantes. Felizmente não conseguiu. Mas o pior estava ainda por vir.
O capitão me levava para seu QG (Junta de Alistamento Militar) para interrogatórios. Após algum tempo, sem avanço nos seus propósitos, começou a mostrar insatisfação. Abria um arquivo, pegava aleatoriamente uma ficha. Dizia-me o que falou ou fez o cidadão contra o seu chamado governo. Lembro-me que uma delas era de um vereador de Santa Lucia, que em determinado dia e hora falou isto e aquilo contra o governo. Logicamente para mostrar que ele sabia que eu estava mentindo e, informava-me o que havia acontecido com pessoas que atrapalhavam o governo. E eu sabia que isso era uma ameaça, mas como sempre eu me portava como que não entendendo nada, até mostrando-me surpreso por tudo que ele conseguia levantar de dados de tantos cidadãos. Era como se nada dissesse respeito a mim.
Ele chegou ao ridículo de certa vez colocar-me sentado numa cadeira, acendeu uma luz acima de minha cabeça e ficava girando a minha volta fazendo perguntas. E eu continuava desinformado e desinteressado, mentindo com uma grande cara de pau. Parecia cena de filmes policiais de mil novecentos e antes. Uma palhaçada. Mas era um risco que ia irritando.
O cúmulo foi quando começou a querer saber o que pensava tal professor. Certa vez pediu que conversasse sobra política com o professor Tabak, para saber o que ele pensava da ditadura e quais suas atividades políticas, alegando que ele era uma ameaça pois era um comunista. E me dizia que ele era comunista porque estudou na Rússia. O dito professor nunca falava de política e fez cursos na Inglaterra, EUA, Rússia e não sei mais onde. Mas para o capitão, se estudou na Rússia, era comunista. Eu como sempre não sabia de nada e não levava respostas. Depois de perguntar sobre outros professores, achei que não dava mais e procurei o professor Safiotti e o informei sobre o que estava acontecendo. Disse a ele que não agüentava mais e que restavam-me duas soluções: a ser preso prefiro me matar ou matar o desgraçado e me engajar na luta armada contra a ditadura. Ele disse para ter calma que tomaria providencias. Ia conversar com o Juiz de Direito que era seu vizinho.
Passado mais ou menos uma semana, estava eu descendo a rua três, em frente onde era o Teatro Municipal, hoje Prefeitura, quando vi o infeliz que vinha em sentido contrario na mesma calçada. Quando chegou bem perto ele virou a cara como se não tivesse me visto. Entendi que o professor tinha conseguido me livrar da situação. O alivio foi tão grande que comecei a correr pela rua gritando, gritando e olhando para o infeliz, que nunca mais me procurou, Naquele dia tomei um porre e ninguém soube porque.

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Na reunião estudantil organizada pela UNE em Ibiúna, foram o presidente do Centro Acadêmico e outro membro do CA que era italiano, o Alfonso Spotto. Todos detidos e colocados em fila para triagem. O presidente Elias Tifune (acho que era assim) estava com livro e caderno de química, colocou fogo na carteira de presidente do CA, assim que a policia chegou. Disse que tinha ido a USP em São Paulo fazer um trabalho de química, e que foi convidado para aquela reunião, mas não sabia de que se tratava e nem que era proibida. Foi liberado. Chegou a vez do Spotto, como bom italiano, com o sotaque característico e agitação de braços mostrou que era estrangeiro. E como estrangeiro em reunião proibida, não tiveram dúvidas, era um subversivo e foi enquadrado. Preso e levado para São Paulo.
Passado algum tempo, muitos presos já liberados e nada do Spotto aparecer. Eu e mais dois colegas fomos à capital procurar o dito cujo. Não sabíamos nem por onde começar. Como bons subversivos se fossemos procurá-lo nas cadeias, provavelmente lá ficaríamos. Fomos às repúblicas de estudantes onde moravam alguns conhecidos e logicamente comunistas e subversivos. Com ajuda dos mesmos localizamos o italianinho que tinha sido liberado já ha algum tempo, mas estava em outra republica, desfrutando a boa vida em São Paulo, com direito a boates e outras farras, mesmo com a proibição de se reunir e ficar na rua após as 10 horas. Nem se tocou que sua família estava muito e muito preocupada. Coisa de italiano largado.

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Fazenda Córrego Rico. Era onde passava minhas férias escolares, lá pelos 14 e 15 anos. Lá aprendi uma grande lição. Estava na cocheira, meu lugar preferido, quando alguém disse que eu não era capaz de acertar o passarinho que estava bebendo água, num bebedouro para os cavalos. Estava a mais ou menos uns 30 metros. Eu era muito bom no estilingue, e foi uma pedrada só, e o bichinho caiu dentro do reservatório. Corri até lá, peguei-o na mão. Ele estava abrindo e fechando o bico e muito contente disse que ele estava ficando bom, que ia viver. Foi uma risada só do pessoal. Ele morreu na minha mão. A partir desse dia nunca mais usei o estilingue para matar algum bicho, apenas para fazer artes, como atirar pedregulhos no sino do escritório da fazenda, só para ver o velho Meliske ficar bravo.
Outra arte que fiz, sem estilingue, foi num dia que os cocheiros disseram-me que o Zé da Nica (um negrinho anão que trabalhava no escritório) estava na baia das poninhas. Era uma baia fechada, de madeira de mais ou menos 1,80 m. O que lá ele fazia não preciso explicar, ou digo, ia tirar o atraso. Os cocheiros correram a se esconder e eu peguei um relho (a gente falava reio) e comecei a bater com ele, para dentro da baia. No começo só ouvia o barulho das poneizinhas agitando-se de um lado para outro, assustadas com as batidas. O resto era silencio. Mas o Zé da Nica era muito medroso, e não demorou para ele se entregar e começou a gritar para que parassem com aquilo. Aí que ficou divertido. Mas quando ele disse que ia sair, ver quem era e dar queixa ao administrador (que era meu tio) eu sumi de vista e, ficamos escondidos escutando ele sair da baia e voltar ao escritório. Eu me diverti, mas ele não.
A gente aprontava muito na fazenda, eu e meus primos, era uma arte atrás da outra. Era uma reclamação atrás da outra ao meu tio. Pedradas em cachorros, patos, galinhas, nas casas de abelhas só pra ver o alvoroço. Às vezes íamos ao cinema da fazenda. Se não nos agradava o filme, saíamos antes e munidos de pedregulhos, íamos arrebentar os isolantes dos postes até conseguirmos cortar a energia e, acabava-se o filme.
De vez em quando meu tio pedia que entregássemos todos os estilingues. Tínhamos medo dele, e entregávamos incontinente, com muita dor no coração. Mas, no dia seguinte quando levantávamos, os ditos estilingues estavam todos sobre a mesa da cozinha, onde íamos tomar o café. Na primeira vez ficamos ressabiados, mas cada um pegava o seu enfiava no bolso e, partia para novas artes. Eita, tempinho bom.
Meu tio tinha fama de mulherengo. As vezes ele deixava o Jeep e ia a cocheira para sair a cavalo. Como lá sempre eu estava, ajudava arrear o bicho e quando ele ia sair eu peguntava se ia à colônia do Limoeiro ou do Carvão. Dizem que era por essas bandas que ele tinha seus rolos. Ele fazia cara de bravo e dizia –“Fica queto moleque.” Eu me divertia com isso. Um dia o cavalo quando começou a andar (meu tio era grande e pesado) começou a peidar. Não perdi a oportunidade: -“Tio, ele não tá aguentando, desce tio, o bicho vai arriá.” E, lá vinha outra vez: - “Fica quieto moleque.”

 

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