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A CAMINHO DO SERVIÇO

Devaneios de quem está a
caminho do serviço.



           A hora é o que menos importa, porque é sempre cedo quando pobre levanta. Se não está frio a cama é boa porque a coberta é pouca, se está frio a cama é boa porque fora dela não tem a pouca coberta.

           Mas, sai José com capote, calças grossas para que o frio não suba pelas pernas. O sapato tem sola nova e a meia é de lã. Não fica bem se não tiver também um cachecol. E o carro poderia virar as esquinas, e em cada uma, ter moças bonitas que olhassem admiradas, mesmo que seja apenas enquanto passa.

           Elas estavam de uniforme. Já era cedo. As vezes tem aula cedo. Nunca é tarde para se aprender.

           O bom no serviço é sentir-se só, quando tem muita gente, ou conversam e atrapalham, ou atrapalham dando palpites. Se for superior perturba, porque precisa lembrar que é. Quem repete o serviço não é ele.

           A barba incomoda mas não vai fazê-la. Com barba ou sem barba é o José. No serviço publico aparência não conta pontos; só para os puxa-sacos. Quem não é, anda a vontade. Porisso José não sai do chão. Mas ele quer sair. Para poder usar um dia palavras como as da letra de música que não lembra bem: “não por mim ou de quem por mim houvesse”. Seria ótimo, todos seriam iguais. Acabariam os achegos. Os pequenos não seriam mais humilhados. Mas, já quebrava um galho entrar na panela.

           José olha o leite, sente até repulsa, por toma-lo tão sem gosto. Tanta gente morre de fome e José bebe como se fosse água. Quem sabe, um ritual, para o paladar sentir, da primeira a última gota? Daríamos mais valor a quem passa fome. Mas comeríamos mais e mais passariam fome. Ainda bem que José não sabe o preço do pão. O pão é a hóstia, quando tem pão, sente-se benzido, porque consegue aliviar a fome de seu filho. Tem até para ele e a mulher. Está redimido. Será que todos tomam café igual a este, tão fraco assim? José não sabe que as vezes, ele é até, privilegiado. José entra numa sala bem comprida, o chão brilhando; enquanto mastiga um pedaço de pão amanhecido. Candelabro de vidro, cristal ou vidro é a mesma coisa para ele. No centro tem a mesa, estreita mas comprida. O tapete é escuro e a mesa bem clara. A mesa comprida não tem pés no meio, mas ela não se curva. Seus filhos (agora tem mais de um) estão nela, sentados. Ocupam uma das pontas, mas se quizerem terão quanto espaço desejarem. Não é preciso toalha porque não é preciso que eles comam na mesa. Na casa de José não há etiqueta. É por isso que ele tem vontade de chamar os filhos dos vizinhos para que façam companhia aos seus. Afinal para José, todos são iguais, apesar dele ser diferente para muitos.

           Mas ficaria sentido se as crianças o vissem olhando o leite escurecido pelo café, com algumas manchas de gordura e entrassem por sua cabeça a dentro. Seria horrível. É preciso sair antes que o filho acorde.

           Hoje ele tem uma camisa nova, ela não tem ainda o cheiro do dono, todas as camisas novas cheiram igual, porque, pensa José, todos devem ser iguais, mas ele não gosta de camisa nova, porque nem todos podem ter uma, e, que tem camisa que não cheira ao dono é porque pode comprar uma nova e, não é mais igual a todos.

           Com o frio gelando seu peito vai o José pelas ruas. Indo a pé pode comprar cigarros. Macedônia. Ele passa em frente a igreja e benze-se. Só por dentro, porque tem medo. Tem medo do pecado. Dentro da igreja José fica em pé; afinal não é a posição que indica respeito. O respeito deve ser interior. Aquelas beatas só conversam, e ficam ajoelhadas. Sai mais fuxico lá dentro que no muro com a vizinha. Também que culpa tem o José, não ensinaram nada pra ele. Só puzeram medo. Inferno, purgatório, pecado e o castigo do céu. Não sabe nem porque o padre toma vinho. Gosta da igreja, não do padre. Só de alguns. Outro dia, um não quis casar; coitada da moça, agora vai largar brasa por aí. Ele vai para o céu, ela para o inferno. Veja se tem graça. Aqui dentro é bom para pensar. Porque os padres não seguem as palavras de Cristo? Tem bispo até, que não cumprimenta pobre. Eles estão sempre do lado do governo, quando ele é o mais forte. Jesus andou descalço, o patrão de José anda de Galaxie, e é malcriado. Se Cristo voltasse, ele ia ser cassado.

           Também quando chegar no escritório vai escrever, só de gozação: “hoje, 18 de maio de 67 – ano IV da revolução”. Revolução como essa, meia dúzia de espanhóis fazem sozinhos.

           Arre, o frio está de rachar. A sola do pé está gelando. José anda mais depressa. O pior do furo no sapato é que a meia fura logo também.

           Agora atravessa o largo da igreja. Passa em frente a loja do turco, para quem está devendo. Quando sair o pagamento, se sobrar da farmácia, ele paga. Se não tivesse chamado o médico dava pra pagar. O melhor mesmo é o farmacêutico. Não cobra consulta e olha direito. Aperta de todo lado. Depois ele desforra na conta. O médico chegou, “tirou” a pressão e conversou. Depois 15 mil e receita de um tal de salicílico.

           Nas avenidas está mais frio que nas ruas. Venta mais. José está chegando; vai pegar uns jornais velhos com o Luiz, colocar no chão, debaixo da escrivaninha e pisar em cima. Jornal esquenta. E fala bobagem. Com este frio bom mesmo é pinga. Na saída vai tomar um gole no bar do Pedro. Vai ficar na conta mesmo. Bem, José chegou.

           Mais uma caminhada chata. Sozinho, sem ninguém pra conversar e trocar idéias.

 

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