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A MORTE DO SOLDADO

Das histórias que meu pai contava
da Revolução de 32.


                Alguém morreu na Revolução de 32; na agonia poderia ter pensado muita coisa. Talvez isto:

                “Correndo no campo da vida, recebi dores, dúvidas, desilusões. Marchando no presente em campo aberto, sinto o fogo que penetra e destrói. Nada resta e posso fazer. Eu serei o nada.

                Morreram muitos. Porque não morrerei agora?

                Penso, penso muito, antes que a morte chegue. O desespero lançou-me na arrancada, foi o erro e aqui estou, não se erra duas vezes. Eu serei o nada.

                Ó Deus porque tenho que morrer agora? Minha terra, minha cidade, as suas ruas, jardins... Nos bancos sentava-me com ela, sem assunto; não precisava falar. Olhando, via seu rosto entre minhas mãos. Agora vejo a morte. Meu deus queria tanto falar. Estou só. Eu serei o nada.

                Falavam-me em luta pela paz, enchia-me de brios e tinha esperanças. Lembro-me da esperança que sentia quando fitava os olhos dela, eles não fugiam de mim. Queria vê-los outra vez. Senhor não quero morrer. A morte me vai levar, fazer-me fugir dos olhos dela. Eu serei o nada.

                Estou colado ao chão, minhas mãos sangram. Não era como quando acariciava seu rosto macio, e olhava para o infinito. Sentia uma razão de vida e a vontade de um futuro. Não quero morrer. Preciso sentir aquele rosto. Eu serei o nada.

                Meu Deus, como é bela a vida.

                Devia sentir-me contente em morrer pela pátria. Mas, eu não quero morrer. Não estarei mais em minha casa. Não usarei mais meus livros. Não sentirei mais sob mim o leito macio. Não direi mais: “- Bom dia”. Não mais verei os amigos, ninguém.

                Também não mais serei visto. No serviço, os que lá continuam, não me receberão de volta. Na sala de aula, não estarei mais, no fundo da classe, em parte alguma. Ao nº 16 só o silêncio responderá. Não quero morrer. Eu serei o nada.

                Quando ela sair de casa, passará por onde costumava esperá-la. Eu não poderei estar lá. Eu serei o nada.

                De que vale um homem que ama, se o seu coração apodrece com o corpo no campo de batalha?

                Mais triste é morrer sem que saibam no que penso.

                A morte não é dor; é uma tristeza sem fim.

                Meu Deus, eu queria tanto..........”


Maio de 1961

 

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