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CEGUETA

Conversa de um ceguinho metido a filósofo e um
Mané metido a gente culta.



           Ceguinho Mané, sentado no banco da praça, ouve a chegada do Bentinho, que vem se anunciando:

           - Mané cegueta, como vai?

           - Cegueta a puta que pariu. Cegueta disfaiz da gente, é como se me chamá de burro o ignorante, eu num sô burro, só falta um pouco mais de escola. Meu nome ocê sabe é Mané, mas pode chama de ceguinho, que num ligo.

           - Mané, você está sempre reclamando, criticando, atacando algo ou alguém. Por que tanto amargor?

          - É que as coisa tá tão ruim, e as coisa ruim tá tão maior que as boa, que inté acho que lá embaixo as coisa tá melhor que aqui, intão é mió cantá as dor do mundo prá num chorá as alegria dus inferno.

           - Mas, Mané, Deus deu a capacidade de raciocínio ao homem e, este, pode sanar o mal com o bem.

           - Aí cô bicho pega Bentinho, o mundo começô com um terríve engano: Deus criou o homem.

           - Mané, você há de convir que há muita felicidade no mundo.

           - Bento, Bento, essa tar de felicidade é só uma bstração do momento de agora.

           - Se o mundo está ficando ruim, Mané, é devido à crescente falta de fé, entre todos os povos.

           - Se os governo acha que pra miorá carece de fé, eles deve com urgência baxá o nível culturá dos povo. Povo culto num liga pra essas coisa.

           - Você fala bobagem Mané, mas errar é humano, está perdoado.

           - É humano e sobre humano tamém, viu?

           - Mané, dê só uma olhada. Oh! Desculpe, mas está passando moça linda, linda, aqui em frente.

           - Bentinho, se o olhá esquentasse, bunda de muié era um braseiro só. Ocêis acha que bonito é o que se vê. Num é bem assim, a muié bunita é aquela que vai pondo cor no mundo por onde ela passa.

           - Mané, está ali o Zéca. Você conhece, mas não imagina o quanto ele é magrelo e comprido, parece um coqueiro. Você sabe o que é um coqueiro?

           - Craro que sei. Fiquei cego só com déiz ano. Até fiz o grupo escolar, purisso que falo bunito. E, te exprico: coquero é uma árvore de mini-saia.

           - Você pensa que sabe muito ceguinho, mas os jovens de hoje, devido a internet sabem muito mais que você e outros idosos.

           - Eles pode sabê mais que nóis véio, mas nóis sabe melhor.

           - É, estamos ficando de idade avançada ceguinho, o tempo passa, meus filhos já estão passando dos trinta.

           - Liga não Bentinho, daqui há pouco eles tão mais véio que ocê.

           - Ceguinho, ceguinho, que mulherão está passando, deve ser jogadora de basquete, tem mais de um metro e oitenta.

           - Muié muito grande num é bão Bentinho. Muié tem que sê que nem piano, que a gente arcança, toda as nota sem fazê força.

           - Veja só, naquele banco do ipê amarelo, um casalzinho está que é uma briga só, mas não se largam. Todo dia é a mesma coisa.

           - Isso é normá Bento, o ódio de quem ama é o amor.

           - Bem ceguinho, falando de amor, domingo tem procissão, pedindo chuva aos santos que a seca está muito brava. Você vai?

           - Vô não Bento. Esse povo que vai lá num tem muita fé não. Se eles creditasse mesmo na Santaiada, com bastante fé, eles ia de guarda-chuva.

           - Já te disse Mané que você é muito amargo, mas eu estou de bem com a vida e, não vou me contagiar.

           - Pode sê ilusão Bentinho, mas é assim mesmo, quando nóis tá de bem com a vida, inté a noite dá bom-dia prá nóis.

           - Só tem um probleminha Mané, quero pintar um quadro para dar de presente a um grande amigo que vai se casar. Mas não consigo por na tela o que vejo na mente. Já recebi até o convite do enlace matrimonial.

           - Gozado né Bentinho como os tempo muda. O bom desse inlace é, na verdade, o desinlace. O desinlace é fogo. Mas hoje em dia, o desinlace vem bem antes do inlace. Intão posso inté concluir que, nos tempo atráiz, noiva era uma muié que tava na fase de expectativa do que ia acontece, hoje noiva é uma muié que tá em fase experimentar. Eles se exprimenta prá vê se dá prá casá. Bentinho, pinta uma lua de mér prá eles. E eu acho que esse negócio de arte é só uma exposição desse tar de ego.

           - A arte nos dá liberdade ceguinho. A gente vê, faz e fala muita coisa que seria censurada em sociedade. É a liberdade total ceguinho.

           - Liberdade totar num funciona Bento, ela é inté anti-democrática.

           - Está bem ceguinho não vou discutir, você não está ao meu nível. Está passando aí um grupo de religiosos, estão com livros de reza ou bíblia na mão. Devem estar indo pedir a Deus que os livre do Diabo.

           - Bento, se Deus existe prá que Diabo? Eles reza porque num sabe o que vem a depois da morte, eles tem medo. Então eles faiz da ignorância uma religião. Tá errado.

           - Seja razoável ceguinho, Deus sabe o que faz. O que acontece é vontade dele.

           - Verdade mesmo Bento? Ocê credita nisso? Óia Bento, se sofrê é vontade de Deus, ora, troca de Deus. Que que é mais idiota que credita num Deus que fode nóis?

           - Por favor Mané, respeito. Deus está além do horizonte.

           - Té que enfim ocê falo coisa certa Bento. Quanto mais a gente avança, mais longe Deus fica.

           - Vamos mudar de assunto. Estou orgulhoso, querem que eu entre para um partido político. A ideologia dele bate com a minha.

           - Ocê pode de tê a sua ideologia, mas se aceitá a do partido tem que segui ela, e isso faiz ocê ir perdendo a liberdade, inté de pensamento.

          - Se chegar lá quero ser um político muito franco, sincero, e dar esperança ao povo.

           - Presta atenção Bento. Franqueza demais é farta de sensibilidade, e tem mais, esperança é uma estrada sem fim. E a depois vai querê vortá, vai dá saudade desses tempo de agora. Sabe porque Bentinho? Porque saudade é a dor da felicidade.

           - Ora ceguinho, você não enxerga nada, nem por dentro e nem por fora. Tenho meu ídolo na política e quero ser tão bom quanto ele.

           - Falô bobage, me descurpa mas é verdade. Presta atenção Bento, o ídolo num pode sê meta, deve de sê um degrau.

           - Sabe ceguinho, além de você falar muita bobagem, acho, acho não, digo mesmo que você é ateu.

           - Num discuto isso. Só digo que: num sô ateu, nem teo, sô mais eu.

           - Ceguinho, você não pode ler mas deve ter ouvido sobre o desperdício, que ocorre nos transportes de grãos, por exemplo. Perde-se muito das colheitas. O que você acha? Gosto de saber a opinião, também, das pessoas menos cultas.

           - Sô obrigado a dizê que ocê tá certo. Desperdício é burrice, mas devia de sê é crime.

           - Sabe ceguinho, tenho um amigo, um gênio, vai ser brevemente, considerado um imortal. Mas, coitado, ele acha que sua mulher está dando muita atenção a um antigo amigo deles, e sabe o que ela disse? Disse assim: “Não é o que você pensa, ele é como um irmão para mim.”

           - Bentinho, vô dize duas coizinha prá ocê. Esse negócio de sê imortá é bobage. Um home só é imortá enquanto seus amigo estivé vivo, e ôtra coisa, no caso da muié dele, fala pra ele num ligá não. Só uma muié num falô essa frase. Foi Eva.

           - Você bebeu hoje, ceguinho? A trôco de que?

           - Bem, hoje já tomei umas. Sei lá a trôco de que, porque eu bebo prá esquece num sei o que.

           - Ceguinho, já perdi muito de meu precioso tempo com você.

           Bento levanta-se e, quando está a uns dez metros escuta o ceguinho gritando-lhe:

           - CEGUETA.

           Bento vira-se e vê apenas um olhar perdido e um sorriso irônico.

mai/05

 

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