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ERA DIA DE BATIDA POLICIAL NA FAVELA

Bandido também pensa na família.


           Era dia de batida policial na favela. Muitos tiros, ninguém morto, mas vários detidos. E, lá estava David. Era reconhecidamente um malfeitor, mas, provas, ora, provar não é fácil. Foi solto dias depois. Seus pais eram moradores de rua. Ele os via, ou melhor, visitava-os, uma ou duas vezes por ano.

           A vida como assaltante era melhor que junto aos pais. Lá passava necessidade; fome, era uma parceira cotidiana. Não se vestia bem, apenas quando tinha um “serviço” em bairro chique, aí, roubava roupas novas e partia para o assalto. No último teve que correr muito, trocar tiros com a polícia, até alcançar a favela, onde se refugiava e tinha protetores, ou seja, ajuda dos delinqüentes locais.

           Era mês de maio, mês de comemorações. Muito bom para conseguir dinheiro fácil. Mês das noivas, dia das mães, isso facilitava muito. As pessoas sentiam-se felizes, ficavam mais distraídas, era mais fácil roubar. Era saber escolher, pessoas comprando presentes de casamento, ou para as mães.

           Com uma roupa melhor, David saiu disposto a faturar. Ajeitou o “berro”, colocou-o na cinta e partiu. Roubou um carro, foi para o centro, entrou numa loja. Guardou no bolso algo que lhe interessava. Ia sair, mas foi dado o alarme, correu atirando para todos os lados. Com o carro procurava afastar-se do centro. Parecia tranqüila a situação, pode recarregar o revolver e, ouviu a sirene, estavam atrás dele. Acelerou, partiu em direção à favela. Entrou contra mão bateu o carro. Saltou e correu, estava perto da favela que seria a salvação quando o cerco se fechou. Muitos tiros. Foi atingido, caiu, foi dominado. Surpresa, o policial que o revistava tinha sido seu amigo de infância. O “tira” olhou-o, reconheceu-o, parecia triste porque no corpo de David podia estar uma de suas balas. Sabia que o caso era fatal, um tiro no peito e dois no abdome. Se não morrer agora, será de infecção generalizada, pensou. Tirou das mãos de David um frasco de perfume barato. Arriscou-se e irá morrer por tão pouca coisa, e, então perguntou-lhe:

           - Porque? Chegou onde está por um vidro de perfume barato?

           Antes de fechar os olhos, David respondeu-lhe:

           - Era um presente pra minha mãe.

 

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