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O PEQUENO E O REI

A educação imposta pelos pais,
moldando a criança à sua imagem.

                    E o pequeno tinha vontade de chorar. Ele sentia um nó na garganta. Mas o rei dizia que homem não chora. Então ele chorava escondido, embora achasse que todos deveriam chorar juntos, ou, deveriam chorar na presença de outros. Um choro escondido é um tempo perdido.

                    E a vida seguia normalmente.

                    O pequeno carregando um imenso fardo. Era como um bastão. Onde ele segurava era estreito porque o pequeno era esperto bastante para conseguir viver razoavelmente na sua faina. Mas em direção à extremidade ele se avolumava. Era tão alto como uma grande árvore. Sólido como aroeira. Era ate bonito, colorido. Não colorido à toa, aleatóriamente.

                    Quando o rei lhe dava um conselho, o bastão aumentava no espaço de uma determinada cor.

                    Quando o rei lhe dizia: "- Vai por mim, que tenho experiência". Aí o bastão precisava ser equilibrado, pois seu tamanho e peso aumentavam muito de um só lado.

                    E a vida seguia normalmente.

                    O pequeno suportava o dia todo o bastão, sem poder larga-lo um só instante. Durante a noite não era menor o seu trabalho, pois só podia cochilar, precisava vigiar o bastão, que ele deixava equilibrado no meio do quarto, para que não caísse.

                    Seria horrível se o vissem descuidando-se do “taco”, como ele o apelidara. Seria um deus nos acuda. Quando isso ocorria o rei lhe dizia: -“o que diria o conselho da corte se o vissem agora? Isto é um escândalo, que pecado.” E, a cada vez que isso ocorria o taco crescia e tornava-se mais pesado. Às vezes ele pensava em depurar o taco. Certa vez ousou insinuar isto ao rei. Sofreu muito. Ouviu que isso era próprio da idade, que todos passavam por isso, que depois esquecem, que eram arroubos da mocidade... Esta última frase ele não suportava, e o taco crescia muito com ela.

                    O pequeno então, pensava e sofria, porque não queria fazer nada para se arrepender mais tarde.

                    Percebeu que quando refletia, o taco crescia, mas crescia na cor branca e o peso pouco aumentava. Então talvez o rei não quisesse que o taco crescesse. Mas quando o rei pensava, seu taco crescia. Ele achou então, que se fosse para crescer, que crescesse com os seus pensamentos.

                    E a vida seguia normalmente.

                    Sem que ele percebesse estava também criando um taco nas mãos de um pequenino.

                    Agora ele estava crescido, já se habituara, tudo estava agora muito bem. Também era um rei. Afinal, o que ele suportara, todos poderão suportar.

                    Apenas um detalhe o deixava curioso. Quanto mais falava e quanto mais pensava, mais crescia o taco aos cuidados do pequeno que agora estava sob sua tutela. Porém, ele não conseguia enxergar o taco que o pequeno segurava. Chamava o pequeno e propositadamente citava as mesmas oratórias que o faziam sofrer. Esforçava-se muito, mas não via nada nas mãos de seu pequeno. Isto o atormentava. Isto o atormentou por muito tempo.

                    E a vida seguia normalmente.

                    Meditou, meditou muito. Passou a chamar por vezes repetidas o pequeno à sua presença. Estava desesperado. Precisava irritar o pequeno, e o fazia com palavras.

                    Seu pequeno haveria de ter um taco grande e bonito. Bem formado. Mas "seu" pequeno já o possuía, bem maior do que o rei pudesse imaginar. Os tacos dos pequenos eram invisíveis para os reis. O rei imaginou isso e achou que conversando com o pequeno, o taco haveria de crescer muito.

                    Ele queria saber até onde o pequeno o suportaria. Talvez ele se desintegrasse em contradições.

                    Lançou tudo ao taco de seu pequeno. "- Talvez eu o liberte", pensava. Mas a reação foi diferente da esperada. O pequeno lançou-lhe o taco por sobre o corpo. O rei estava ficando sufocado sob o taco.

                    Não demorou muito, entraram outros reis, em desordem, andando como autômatos. Agrediram com pancadas e chutes o pequeno, fazendo-o passar por uma pequena porta, de onde não se sabe se voltaria.

                    Antes de morrer, e após presenciar a punição do seu pequeno, o rei ainda falou, só que já era um pouco tarde, porque falou só para si.

                    "- Terei libertado-me em vão? Libertei-me ou fuji à luta?"

                    E, lá fora o seu pequeno carregava agora dois tacos.

 

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